Voltar à página de EDF-116 Filosofia da Educação IIAula 5, 13-09-06 (próxima aula será no Auditório FEUSP: Seminário Internacional) Uma boa dica para a prova: Incluir, em suas reflexões, comentários a canções!Artigos Importantes / textos citados em aula
Jean Lauand O Filósofo e o Poeta
Pieper, Josef Abertura para o todo: a chance da Universidade, São Paulo, Apel, 1989
Jean Lauand Onde está a verdadeira realidade?
Pieper, Josef Dois modos de ser crítico (citado em aula)
Poesia e Filosofia - entrevista com Adélia Prado (é o ponto 3 na página linkada. Poema inédito citado em aula)
Heráclito: os deuses estão aqui mesmo: junto ao fogão
Tomás de Aquino: a skholé como condição do aprendizado
Canções (som, letra e tradução)
What a Wonderful world! Coisas do mundo, minha negaWhat a Wonderful world
Some of you young folks been saying to me
"Hey Pops, what you mean What a wonderful world
How about all them wars all over the place
You call them wonderful
And how about hunger and pollution
That aint so wonderful either"
Well how about listening to old Pops for a minute
Seems to me, it aint the world that's so bad
but what we're doin' to it
And all I'm saying is
See what a wonderful world
It would be if only we'd give it a chance
Love baby, love
That's the secret, Yeah
If lots more of us loved each other
We solve lots more problems
And then this world would be better
That's wha' ol' Pops keeps sayingI see trees of green, red roses too
I see them bloom, for me and you
And I think to myself, what a wonderful world
I see skies of blue, and clouds of white
The bright blessed day, dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world
The colors of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces, of people going by
I see friends shaking hands, sayin' how do you do?
They're really sayin' I love you
I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more, than I'll never know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes I think to myself, what a wonderful world
Oh yeahAlguns de vocês, jovens, me têm dito:
"Qual é, Pops? que papo é esse de `Que mundo maravilhoso?'
Pô! guerra prá todo lado
Você as acha maravilhosas?
E que diz da fome e da poluição?
são maravilhosas também?"
Muito bem, e que tal vocês ouvirem agora
um minutinho o tio aqui:
Parece-me que o problema não é que o
mundo seja tão mau, mas que mundo nós estamos
construindo? O que eu digo é só: vejam
que mundo maravilhoso se nós lhe déssemos uma chance.
Amor, "cara", amor! Esse é o segredo!
Se cada vez mais de nós tivéssemos nos amado
teríamos resolvido um monte de problemas e
este mundo seria melhor
Essa é que é a do Pops aqui...Vejo as árvores de verde e rosas vermelhas
florescerem para você e para mim
E eu fico pensando... que mundo maravilhoso!
Vejo o céu de azul e as nuvens de branco
o abençoado dia de luz e a sagrada escuridão da noite
E eu fico pensando... que mundo maravilhoso!
As belas cores do arco-íris, tão delicadas no céu,
eu as vejo também no rosto da gente que passa.
Por trás de cada cumprimento "Oi tudo bom!"
o que na verdade se diz é "Eu amo você"
Ouço o choro dos bebes e vejo-os crescendo,
eles aprenderão muito mais do que tudo que eu possa saber.
É, eu fico pensando... que mundo maravilhoso!
Sim é!
....Coisas do mundo, minha nega
(Paulinho da Viola)
Hoje eu vim minha nega
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso
Nas mãos a mesma viola onde gravei o teu nome (bis)
Venho do samba há tempo, nega
Vim parando por ai
Primeiro achei Zé Fuleiro que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Que está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se eu não dispunha de algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba para ele
Foi um samba sincopado
Que zombou de seu azar
Hoje eu vim, minha nega
Andar contigo no espaço
tentar fazer em teus braços um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra para não perder o valor (bis)
Depois encontrei seu Bento, nega, que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada, e não beber mais cachaça
Ela fez até promessa, pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele, que sorriu e adormeceu
Hoje eu vim, minha nega, querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu quando te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço (bis)
Por fim eu achei um corpo, nega, iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem, um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro a causa da discussão
Foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão
Não tirei minha viola, parei, olhei e vim-me embora
Ninguém compreenderia um samba naquela hora
Hoje eu vim, minha nega, sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo a forma de se viver
As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender (bis)
Heráclito: os deuses estão aqui mesmo: junto ao fogão
Para compreender o significado e o alcance do cotidiano, do "trivial", já para os fundadores da Filosofia. devemos remontar a um emblemático episódio, protagonizado por um grande pensador nos alvores da filosofia, Heráclito de Éfeso. O episódio é narrado por Aristóteles (De part. anim., A5 645 a 17 e ss. ):
Diz-se que Heráclito assim teria respondido aos estranhos vindos na intenção de observá-lo. Ao chegarem, viram-no aquecendo-se junto ao forno. Ali permaneceram, de pé (impressionados sobretudo porque) ele os encorajou (eles ainda hesitantes) a entrar, pronunciando as seguintes palavras: "Mesmo aqui os deuses também estão presentes" (cito por Heidegger, Heráclito, Rio de Janeiro, Relume Dumará, p. 22)Em vez do "sábio" por eles imaginado, imerso nas profundezas do pensamento, investigando os segredos da divindade, esses visitantes decepcionados encontram Heráclito prosaicamente aquecendo-se junto ao fogão. E o filósofo tem que instruir esses curiosos desavisados: ... Mesmo aqui, junto ao forno, mesmo neste lugar cotidiano e comum onde cada coisa e situação, cada ato e pensamento se oferecem de maneira confiante, familiar e ordinária, "mesmo aqui", nesta dimensão do ordinário, os deuses também estão presentes. A essência dos deuses, tal como apareceu para os gregos, é precisamente esse aparecimento, entendido como um olhar a tal ponto compenetrado no ordinário que, atravessando-o e perpassando-o, é o próprio extraordinário o que se expõe na dimensão do ordinário (Heidegger p. 23-24).
Se a filosofia, tal como a arte, tem a missão de recordar os "essenciais esquecidos", esse episódio, mesmo em sua interpretação superficial, já teria o imenso mérito de lembrar a presença de Deus no cotidiano. O alcance do posicionamento de Heráclito é, porém, ainda mais profundo e a análise de Heidegger chega a uma conclusão muito forte, e como ele mesmo diz, "curiosa". É o que, em português, podemos expressar, lendo o "mesmo aqui" de Heráclito, como "aqui mesmo"! E é que, no fundo, Heráclito não diz "Mesmo aqui estão os deuses", mas sim: "É aqui mesmo que estão os deuses". Aqui mesmo: junto ao forno, no trivial do cotidiano:
Quando o pensador diz "Mesmo aqui", junto ao forno, vigora o extraordinário, quer dizer na verdade: só aqui há vigência dos deuses. Onde realmente? No inaparente do cotidiano. E Heidegger prossegue (p. 24): "Não é preciso evitar o conhecido e o ordinário e perseguir o extravagante, o excitante e o estimulante na esperança ilusória de, assim, encontrar o extraordinário. Vocês devem simplesmente permanecer em seu cotidiano e ordinário, como eu aqui, que me abrigo e aqueço junto ao forno. Não será isso que faço, e esse lugar em que me aconchego, já suficientemente rico em sinais? O forno presenteia o pão. Como pode o homem viver sem a dádiva do pão? Essa dádiva do forno é o sinal indicador do que são os theoí, os deuses. São os daíontes, os que se oferecem como extraordinário na intimidade do ordinário."
Tomás de Aquino: a skholé como condição do aprendizado
Santo Tomás de Aquino ensina que onde há tristeza onde há chatice há pecado... Um professor chato não só não ensina mas comete pecado e, se é muito chato, comete pecado mortal...
Daí decorrem importantes conseqüências para a Filosofia da Educação: o ensino não pode ser aborrecido e enfadonho: o fastidium é um grave obstáculo para a aprendizagem (Suma Teológica, prólogo).
Em outro lugar da Suma Teológica, no tratado sobre as paixões, Tomás -jogando com as palavras - analisa um interessante efeito da alegria e do prazer (delectatio) na atividade humana: o efeito que ele chama metaforicamente de dilatação (dilatatio): que amplia a capacidade de aprender tanto em sua dimensão intelectual quanto na da vontade (o que designaríamos hoje por motivação): delectatio/dilatatio, a deleitação produz uma dilatação essencial para a aprendizagem. E, reciprocamente, a tristeza e o fastio produzem um estreitamento, um bloqueio, ou, para usar a metáfora de Tomás, um peso (aggravatio animi), também para a aprendizagem (ibidem, I-II, 37, 2, ad 2.).
Diz Tomás: “A largura é uma dimensão da magnitude dos corpos e só metaforicamente se aplica às disposições da alma. ‘Dilatação’ indica uma extensão, uma ampliação de capacidade, e se aplica à ‘deleitação’ [Tomás joga com as palavras dilatatio-delectatio] com relação a dois aspectos. Um provém da capacidade de apreender que se volta para um bem que lhe convém e por tal apreensão o homem percebe que adquiriu uma certa perfeição que é grandeza espiritual: e por isso se diz que pela deleitação sua inteligência cresceu, houve uma dilatação. O segundo aspecto diz respeito à capacidade apetitiva que assente ao objeto desejado e repousa nele como que abrindo-se a ele para captá-lo mais intimamente. E assim se dilata o afeto humano pela deleitação, como que entregando-se para acolher interiormente o que é agradável" (I-II, 33, 1).
Por isso em II-II, 168, 2 ad 1, Tomás recomenda o uso didático de brincadeiras e piadas: para descanso dos ouvintes ou alunos.
Não é de estranhar, portanto, que, tratando do relacionamento humano, Tomás chegue - com um realismo prosaico - a afirmar a necessidade ética de um trato divertido e agradável, baseado no fato (empírico) tão simples de que: nullus potest per diem morari cum tristi, neque cum non delectabili - ninguém agüenta um dia sequer com uma pessoa aborrecida e desagradável. (Non posset vivere homo in societate… sine delectatione, quia sicut Philosophus dicit, in VIII Ethic.: “Nullus potest per diem morari cum tristi, neque cum non delectabili”.Et ideo homo tenetur ex quodam debito naturali honestatis ut homo aliis delectabiliter convivat ib,II-II,114,2ad 1)